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O CASO DOS SETE MORTOS QUE NINGUÉM MATOU




O caso dos sete mortos que ninguém matou

Por volta das quatro da manhã do último sábado um comboio de dois blindados do Exército e um da Polícia Civil entrou no complexo de favelas do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. A ação interrompeu um baile funk na comunidade, houve correria e terminou com sete mortos esparramados ao longo de um quilômetro de via. Os responsáveis por essas mortes são um mistério que –alimentado por seus protagonistas– já se arrasta por quatro dias.

Os 15 homens da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), um corpo de elite da Polícia Civil, que, teoricamente, eram os coordenadores da operação, negaram ter disparado um único tiro. Após ouvir os depoimentos de três dos agentes na Delegacia de Homicídios, o delegado responsável pelo caso, Marcos Amin, chegou a afirmar que foram os militares.

De sua parte, o Exército que, além dos blindados, cedeu 17 soldados à ação, afirmou que os disparos tampouco saíram de suas armas. Eles, disse o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Roberto Itamar, apenas ouviram os tiros e se depararam com os corpos já inertes.

A contradição nessa chamada “operação conjunta” se mantém até hoje sem que o Exército nem a Polícia Civil ou a Secretaria de Segurança Pública esclareçam o que aconteceu.

A Polícia Civil foi rápida em divulgar a ficha criminal de três dos mortos, com passagens por tráfico e lesão corporal, e as sete pistolas e o fuzil apreendidos. Mas não explicou, entre outras coisas, qual era o objetivo da operação, uma vez que o complexo de favelas já tinha sido alvo de uma megaoperação quatro dias antes. Na ocasião, com 3.500 militares e até cerco marítimo, foram detidos oito suspeitos, mas não foi apreendida nenhuma arma.

Em um comunicado comum emitido na noite do sábado, Polícia Civil e Exército afirmaram que houve "resistência armada" por parte de traficantes no local. Já nesta segunda, o coronel Itamar disse que “não houve confronto entre as forças de segurança e das Forças Armadas com integrantes de facções criminosas”. Ao EL PAÍS, o coronel deixou nas entrelinhas a possibilidade de que um grupo de traficantes rival estivesse presente no mesmo local e no mesmo horário podendo ter provocado a chacina. A hipótese faz referência a uma coincidência maiúscula: a presença de duas gangues inimigas, duas guarnições do Exército e um corpo de elite da Polícia Civil ao mesmo tempo.

O episódio além de pôr em xeque a efetividade e integração das forças de segurança em operação de combate o tráfico, revelou os efeitos da Lei 13.491/17 que ampliou competências da Justiça Militar Federal. Sancionada pelo presidente Michel Temer no mês passado, a legislação alterou o conceito de crime militar para abranger o homicídio doloso (com intenção de matar) de militares das Forças Armadas contra civis.CONTINUE LENDO

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