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EM MINAS: ENTERRO DURA 5 MINUTOS

AUTOR DE CRIME É ENTERRADO EM MEIO OPERAÇÃO ABAFA 




Tiago Queiroz/Estadão Parentes das vítimas chegam ao velório em Janaúba (MG)



Em um enterro que durou cinco minutos e não teve a presença de familiares, o corpo do vigilante Damião Soares dos Santos, de 50 anos, foi sepultado na tarde de sexta-feira em Janaúba, norte de Minas Gerais. Com clima de revolta na cidade, a “operação abafa” foi montada para evitar transtornos no cemitério – lá estão enterrados todos os mortos do ataque à creche municipal Gente Inocente.


Por volta das 15h30, o corpo de Damião foi retirado do carro funerário e levado para a cova logo em seguida. Naquele momento, o cemitério estava praticamente vazio por causa do velório da professora Heley de Abreu, de 43 anos, que reuniu uma multidão em outro local. Considerada heroína, foi ela quem lutou contra o vigilante.

Apenas uma senhora, amiga da família, acompanhou o enterro. Ela reclamou de não haver nenhum representante da prefeitura por lá, já que Damião prestou serviço de segurança para o município por oito anos. O horário do enterro não foi divulgado com antecedência por nenhum órgão - ao contrário do que ocorreu com as vítimas.

No cemitério, uma cruz azul marca o local onde Damião foi enterrado, bem acima do corpo do pai. Nela, está gravado apenas o nome do lavrador Patrocino Soares dos Santos, de 81 anos, e a data da morte, 4 de outubro de 2014: exatamente três anos antes de o filho atear fogo na creche e em si próprio.

“Tomamos preocupações porque os ânimos estavam acirrados”, afirma Miguel Fernandes, de 51 anos, o único coveiro do cemitério, que contou ter recebido ordem para não enterrar o vigilante perto das crianças.

Fernandes estima já ter cavado mais de 3 mil covas em Janaúba e, mesmo assim, não conseguiu conter as lágrimas nos últimos dias. “Foi a maior tragédia que eu já vi”, diz o coveiro, que nem sequer conseguiu parar para almoçar na sexta-feira, um dia após o crime. “Eu vi os pais dessas crianças crescerem, não tem como não me sensibilizar.”

Aos fundos de uma igreja, em uma rua de barro, familiares do vigilante moram em cinco casas, uma ao lado da outra. Na tarde de ontem, no entanto, todas estavam trancadas e sem movimentação de pessoas. Segundo vizinhos, a mãe dele é idosa e tem a saúde debilitada, que foi agravada após a tragédia.

Damião morava sozinho na Rua Barão de Rio Branco, onde mantinha uma fábrica caseira de picolé. Em um carrinho acoplado em uma moto, vendia os sorvetes a R$ 1 durante o dia. À noite, trabalhava na creche – mas estava de férias havia três meses, segundo a prefeitura. Nunca havia atrasado um aluguel, dizem seus vizinhos.

Ameaça. Burburinhos sobre ameaças contra os familiares de Damião correm à solta. “Tenho medo e, se pudesse, saía daqui. O povo fala em incendiar o quarteirão todo”, conta o vizinho Sebastião Barbosa, de 79 anos, que mora ali há mais de 30 anos.

Amigo da família, Barbosa descreve Damião como um “sujeito calmo e trabalhador” e recorda da vez que ele o ajudou a fazer um reparo na instalação elétrica da casa. “Era um homem tão bom, mas virou a cabeça.” Segundo Barbosa, Damião tinha um irmão gêmeo chamado Cosme, que mora em São Paulo. Os nomes foram dados em homenagem a São Cosme e São Damião, cujo dia é tradicionalmente celebrado distribuindo doces para crianças. Ele teria mais seis irmãs e outro irmão.

O aposentado Mizael Soares, de 80 anos, amigo de Damião há 10, se mostrou surpreso. “Era um homem bom, igual a todos nós. Se existe demônio – e eu acredito –, só pode ter encarnado nele”, afirmou.

Para a polícia, Damião tinha síndrome persecutória, doença em que as pessoas acham que são perseguidas por alguém. Em 2014, ele denunciou a mãe por envenenar o pai, que morreu de causas naturais

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